O cimento conta a história: o que a Cimento Apodi revela sobre a construção civil no Nordeste
Com recordes seguidos e a fábrica perto do limite, a cimenteira cearense virou um termômetro do ciclo de obras que movimenta a região. E o que ela mostra vai muito além de uma empresa.

Existe uma forma simples de medir o ritmo da construção civil: olhar para quem vende cimento.
Nenhuma obra sai do papel sem ele. Prédios, hospitais, galpões, moradias populares e grandes projetos industriais começam, literalmente, pelo concreto. Por isso, quando uma cimenteira bate recordes seguidos, ela está contando uma história maior do que a dela.

No Ceará, essa história tem nome. A Cimento Apodi, com fábricas em Quixeré e no Complexo do Pecém, projeta faturar R$ 1 bilhão em 2026, pela primeira vez na sua trajetória. O número representa uma alta de 15% sobre 2025, que já tinha sido o melhor ano da empresa, com crescimento de 25% no faturamento.
Uma fábrica perto do limite
O primeiro semestre de 2026 foi o melhor da história da companhia, segundo o CEO Sérgio Maurício, em entrevista ao O Povo. A rentabilidade ficou 40% acima do previsto no orçamento do ano.
O dado mais revelador, porém, é outro: a demanda está chegando perto do teto da produção.
As duas unidades da Apodi têm capacidade para mais de 2 milhões de toneladas de cimento por ano. Mesmo depois de elevar em 15% a produtividade da moagem com ajustes operacionais, a empresa já estuda ampliar a capacidade no Ceará a partir de 2028.
Quando uma indústria de base começa a planejar expansão, é sinal de que o mercado ao redor dela também está crescendo.
Três motores puxando a demanda
O avanço da Apodi acompanha três movimentos que hoje sustentam a construção civil no Nordeste.
O primeiro são os grandes projetos industriais e de infraestrutura, especialmente na região do Pecém e na Grande Fortaleza. São obras que demandam volumes elevados de cimento e concreto de alta resistência.
O segundo é o Minha Casa, Minha Vida. Com faixas atualizadas e valor financiado ampliado, o programa passou a alcançar também parte da classe média e ganhou peso no mercado habitacional.
O terceiro são as obras imobiliárias de grande porte. Os superprédios que mudam o horizonte de capitais como Fortaleza exigem concretos de ultra resistência, um segmento em que a Apodi se posicionou como fornecedora das grandes construtoras da região.
De uma moagem no porto a uma cadeia completa
A trajetória da empresa ajuda a entender por que ela chegou preparada a esse momento.
A Apodi nasceu de uma aposta do Grupo Dias Branco. No início, era uma pequena unidade no Pecém que reprocessava cimento importado. Em 2016, o grupo grego Titan, com mais de 110 anos no setor, entrou como sócio em uma joint venture 50/50 com a família Dias Branco.
Hoje, com fábrica própria em um parque industrial de 3 mil hectares em Quixeré, no Vale do Jaguaribe, e moagem no Pecém, a empresa é autossuficiente em toda a cadeia. Em 2026, completa 15 anos de operação.
Eficiência virou vantagem competitiva
A indústria do cimento depende de combustíveis fósseis, e o último ano foi de pressão: petróleo mais caro, frete marítimo em alta e custos subindo.
A Apodi encontrou parte da resposta na própria operação. É a única cimenteira do Brasil que recupera os gases quentes da produção para gerar a própria energia elétrica. Também substitui o coque de petróleo por biomassa, resíduos industriais e resíduos urbanos.
O resultado é duplo: menos emissão de carbono e mais margem em um cenário de custos altos.
O que esse movimento sinaliza para quem faz negócios
O crescimento de uma indústria de base raramente acontece sozinho.
Por trás de cada tonelada de cimento vendida existem construtoras, fornecedores de materiais, transportadoras, empresas de engenharia, prestadores de serviço e mão de obra. Quando a demanda chega perto do limite de uma fábrica, toda essa cadeia sente o efeito.
Para empresários do Nordeste, o recado é claro: a construção civil está em um ciclo de demanda firme. E quem fornece para esse setor tem espaço para crescer junto.
De olho nos próximos movimentos
O momento da Apodi é um retrato do setor: demanda aquecida, capacidade no limite e decisões de investimento pela frente.
É exatamente esse cenário que estará em pauta no próximo encontro da Ramp Up Business. No dia 3 de dezembro, recebemos Ricardo Bezerra e CEOs, empresários, presidentes e líderes da construção civil nordestina para discutir tendências, desafios e as oportunidades que estão erguendo o futuro do setor. Em breve, mais informações.






